Vacina contra nicotina se mostra eficaz em ratos


A terapia genética pode funcionar como uma vacina e fazer com que o sistema imune inutilize as moléculas de nicotina.

 Esta nova técnica permitiu que os ratinhos deixassem de sentir os efeitos da substância responsável pelo vício do tabaco, mostra um artigo publicado na revista Science Translational Medicine.

A ideia de vacina está associada a doenças causadas por agentes patogénicos como as bactérias ou os vírus.

O corpo recebe pedacinho de uma dada bactéria, insuficiente para causar a doença, mas que provoca uma reação do sistema imune que passa a reconhecer aquele agente patogénico e produz anticorpos para o combater. Quando o corpo volta a ser infectado pela
bactéria, o sistema imune reconhece imediatamente a bactéria, destrói a invasora e não adoece.

Este sistema de reconhecimento e inutilização de agentes estranhos também pode ser aplicado a outras substâncias. Durante muito tempo, tentou-se fabricar um tipo de vacina contra a nicotina – um método potencialmente eficaz para o combate do tabagismo, que faria com que as pessoas deixassem de fumar mais facilmente porque não sentiriam o efeito da nicotina.

Esta leva entre dez a 19 segundos a chegar dos pulmões ao cérebro. Em teoria, os anticorpos contra a nicotina captam às moléculas de nicotina e impedem de passar a barreira que protege o cérebro do sangue, evitando os efeitos deste aditivo.

A nicotina é uma molécula muito pequena e o corpo tem dificuldade em reconhecer esta droga e produzir anticorpos. Por isso, os métodos de vacinação passavam por injetar diretamente anticorpos contra a nicotina. Mas estes anticorpos mantinham-se pouco tempo no corpo, e o tratamento fica caro.

A equipe de Ronald Crystal, do Weill Cornell Medical College, em Nova Iorque, nos Estados Unidos, resolveu experimentar um novo processo recorrendo à terapia genética. Para isso, utilizaram o gene responsável pela produção de um anticorpo especialmente potente contra a nicotina e incorporaram o anticorpo no DNA de um adenovírus, muito utilizado em terapia genética.

Depois, injetaram este adenovírus em ratinhos. O vírus estava programado para infectar as células do fígado e injetar no DNA destas células o segmento genético com a informação do anticorpo contra a nicotina. Isto fez com que o fígado começasse a produzir o anticorpo em grandes quantidades.

Quando injetaram nos roedores doses regulares de nicotina, estes anticorpos retiveram 83% das moléculas e a concentração de nicotina que chegava ao cérebro era 15% da normal. Os testes foram feitos ao longo de 18 meses e os resultados mantiveram-se. Os ratinhos não sentiam os efeitos fisiológicos da nicotina: não ficavam mais calmos, nem o batimento cardíaco desacelerava, nem a pressão arterial baixava.

“A nossa vacina permite ao corpo produzir os seus próprios anticorpos contra a nicotina e, dessa forma, desenvolver uma imunidade funcional”, refere Ronald Crystal, em comunicado. “Apesar de só termos testado [esta técnica] em ratinhos, estamos muito esperançosos que a estratégia ajude finalmente milhões de fumadores que tentaram parar de fumar e não conseguiram”, defende.

Outra ideia lançada pelo cientista é este tipo de vacina ser aplicado logo na infância. “Assim como os pais decidem dar às crianças a vacina contra o HPV [o vírus do papiloma humano], podem decidir utilizar a vacina contra a nicotina. Mas para já, isto é só uma opção teórica”, ressalva o cientista. “É necessário pesar os benefícios e os riscos [deste método], e vai levar anos até os estudos estabelecerem este balanço.”

Fonte: Publico.pt

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