Câncer de pele identificado em peixes


Câncer de pele semelhante ao humano encontrado em peixes selvagens
Talvez esteja na altura de os peixes começarem a usar protetor solar. Um estudo recente descobriu, pela primeira vez, câncer de pele em peixes selvagens, especificamente em várias espécies de trutas e coral, na Grande Barreira de Corais da Austrália. As lesões e manchas parecem ser uma versão escamosa do cancer de pele humano, não estando ainda claro se estes animais são impróprios para consumo.

Os cientistas sabem como provocar câncer de pele em peixes, em laboratório. Criam um “swordtail” e um “platyfish”, ambos animais de estimação comuns, para originar crias que são mais sensíveis à luz ultravioleta.

A causa é genética, “platyfish” possuem um oncogene e um regulador desse gene que o controla, enquanto que os “swordtails” não o possuem. Quando os filhos, por vezes, herdam apenas o oncogene mas não o seu regulador, há um significativo aumento da incidência de vários tipos de câncer.

Estes descendentes foram utilizados para o estudar o câncer da pele em seres humanos. No entanto, os investigadores não tinham a certeza sobre a existência de peixes com câncer no seu estado selvagem.

O primeiro indício de que era possível foi quando um grupo de biólogos marinhos do Instituto Autraliano de Ciência Marinha, em Townsville, que estavam a estudar tubarões no recife da Grande Barreira, percebeu que o coral e as trutas comidas pelos tubarões tinham manchas pretas na pele. Inicialmente, os investigadores pensaram tratar-se de um fungo. Mas, quando enviaram amostras de tecido dos peixes aos colegas da Universidade de Newcastle, no Reino Unido, os cientistas britânicos não encontraram nenhuma evidência de infeção microbiana. Além disso o grupo australiano não encontrou poluentes na Grande Barreira de corais altamente protegida que poderiam ter causado essa coloração. Assim ficou como principal suspeito: cancro de pele.

A equipe testou a sua hipótese, examinando células da pele das lesões sob o microscópio. Ao contrário de células normais de pele de peixe, viram células bem grupadas e produtoras de pigmentos, em áreas onde geralmente não há nenhum. Além disso, as lesões eram idênticas às dos peixes em que era induzido câncer em laboratório.

É, portanto, altamente provável que as espécies de trutas na Grande Barreira de Corais estejam a sofrer de "câncer de pele", segundo o relato online da equipa na revista PloSONE.

Os pesquisadores atribuem à doença duas causas. A Grande Barreira de Coral situa-se abaixo do maior buraco da camada de ozono, o que significa que a região recebe radiação UV muito mais do que qualquer outro lugar na terra. Além disso, eles acreditam que as espécies de peixes afetadas se podem ter cruzado uns com os outros, o que resulta numa descendência mais propensa a mutações de certos genes devido a UV, o que levaria a câncer da pele. A equipe quer realizar mais testes genéticos para determinar se os padrões de hereditariedade pode ser o mesmo que eles vêm na prole de acasalamentos realizados com os peixes em laboratório.

“Não está ainda claro qual o impacto do câncer de pele sobre o peixe”, diz Michael Sweet, um microbiologista da Universidade de Newcastle e coautor do estudo. “É possível que quanto mais avançado esteja o melanoma mais lentos se tornem os peixes e, portanto, é, têm mais probabilidade de serem capturados. Também ainda não está claro se a qualidade dos peixes doentes representa um perigo para os seres humanos que os comem, mas uma vez que eles são criados comercialmente, duvida-se que os doentes cheguem ao mercado.”

“Por enquanto, os investigadores confirmaram apenas "câncer de pele" em peixes do extremo sul da Grande Barreira de Corais, mas pode estar mais difundido”, duz Sweet.

Christopher Lowe, um biólogo marinho da Universidade do Estado da Califórnia, Long Beach, está impressionado com o processo de eliminação que os autores abordaram para chegarem à sua conclusão.

"As pessoas têm vindo a trabalhar sobre a truta de coral por um longo tempo, e é interessante que esta observação, relativamente recente, possa ter um componente genético", diz ele. Ainda assim, ele adverte que embora a radiação UV parece ser o provável culpado, ainda é possível que um poluente não detetado também possa ser um fator contribuinte.

Fonte: ScienceMag 
Tradução/Adaptação: Inês Barreiros 
Revisão: Fernando Góis
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