Mulheres são minoria nas altas posições da carreira científica


Ao se considerar o crescente número de mulheres em atuação na ciência há motivos para comemorações nesta sexta-feira, 8 de março, quando se celebra o Dia Internacional da Mulher. Por outro lado, as estatísticas mostram que as mulheres ainda são minoria quando se trata da ocupação nas altas posições na carreira e na atuação em áreas relacionadas às exatas, como matemática, engenharias e física.

Segundo o último levantamento divulgado pelo diretório de grupos de pesquisa (DGP) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq/MCTI), o número de cientistas mulheres já é praticamente igual ao do gênero masculino.


Em 2010, dos cerca de 128 mil pesquisadores cadastrados na base de dados, 49,6% eram mulheres. Essa realidade já foi diferente: em 1995, por exemplo, de cada 100 pesquisadores apenas 39 eram do sexo feminino. Ao se avaliar a distribuição de pessoas na condição de liderança dos grupos de pesquisa, os números também apontam a participação significativa e cada vez maior das mulheres. Em 2010, elas eram 47 mil contra 44 mil homens. Há 15 anos, 5.820 homens estavam na liderança das pesquisas, enquanto 3.020 mulheres atuavam no gerenciamento dessas atividades.

Apesar dos grandes avanços alcançados, há obstáculos a superar na busca por condições iguais. Isso pode ser verificado no conjunto de coordenadores dos institutos nacionais de ciência e tecnologia (INCTs), responsáveis pela articulação em rede dos principais projetos de pesquisas em áreas de fronteira da ciência. Do total de 126 institutos existentes, 109 são coordenados por homens e 17 por mulheres.

Levantamento da Assessora de Estatística e Informação (AEI) do CNPq também mostra essa disparidade em relação ao número de pesquisadores nos mais altos graus de produtividade em pesquisa. É o que se percebe no comparativo quanto ao volume de bolsas-ano de Produtividade em Pesquisa concedidas pela agência de fomento em todos nos níveis (1A, 1B,1C,1D e 2). Em 2011, por exemplo, eram 883 bolsistas homens e 256 mulheres no primeiro nível (1A).

A pesquisadora Betina Stefanello, que estuda as relações de gênero no meio científico, aponta a existência de um “labirinto de cristal”. A metáfora representa o obstáculo invisível, porém concreto, que impede as mulheres de chegarem a determinadas posições de prestígio nas profissões.

"É importante destacar que o sucesso na carreira científica, embora não seja desvinculado do mérito, não pode ser reduzido ao fator talento como determinante”, ressalta Betina. “São muitos os elementos que definem uma trajetória contemplada pelo prestígio e pelo reconhecimento da comunidade científica”, acrescenta.

Em seu mestrado, ela examina a diversidade de obstáculos que as mulheres enfrentam para atuar nas ciências, que também passam por conflitos entre os discursos “ser mulher” e “ser cientista”, levando em conta questões como a maternidade, o uso do tempo com a múltipla jornada de trabalho, a manutenção da unidade familiar e da relação afetiva e até valores culturais da sociedade e que orientam a prática científica.

“O fato de ser casada e ter filhos dificulta, porque se tem menos tempo para fazer pesquisa e se tem menos mobilidade. Fica mais difícil de conciliar”, reforça a analista em ciência e tecnologia, que teve a oportunidade de entrevistar vários grupos de mulheres durante a realização do mestrado em história na Universidade de Brasília (UnB). Ela lembra a própria imagem coletiva que se construiu do cientista, tendo como referência a figura de um homem branco no laboratório.

"Não são poucos e nem triviais os obstáculos enfrentados por pertencer ao sexo feminino: a representação social de quem faz ciência e do que é ciência, a divisão sexual do trabalho, o conflito entre as culturas científicas e femininas, a hostilização do feminino e suas consequentes violências, o androcentrismo na construção de saberes científicos, a produção e divulgação de conhecimento científico sexista", afirma.

A pesquisadora também chama a atenção para a sub-representação feminina nas áreas das engenharias, ciências exatas e da terra e ciências agrárias. As cientistas predominam em áreas das ciências humanas (59%) e sociais (55%), mas as ciências exatas são dominadas pelos homens (64%), principalmente, as engenharias e a computação (66%).

Betina Stefanello lembra que o mundo da ciência não é diferente dos demais, em que o sexismo e a discriminação ainda estão presentes. Na sua avaliação, isso faz diferença no cotidiano das mulheres cientistas e, mesmo antes, na escolha da carreira por parte das meninas. Para ela, existe a escolha racional, mas é possível considerar a internalização dessa opção desde a infância, podendo o sexo influenciar no destino profissional. “As cores vão variar conforme o sexo e os próprios brinquedos podem influenciar muito as aptidões e as atividades a serem desenvolvidas, e as próprias preferências”, sustenta a também especialista em antropologia.

Para Betina, que estuda as políticas públicas voltadas para as mulheres no seu doutorado em ciências sociais, algumas medidas governamentais já facilitam a vida da cientista, a exemplo da licença-maternidade. “A formação do cientista é longa e depende das bolsas governamentais. Até pouco tempo atrás, a licença não estava prevista pelo fato de a bolsa não ter um vínculo empregatício. Isso prejudicava principalmente as jovens que queriam ser mães e que precisavam realizar o trabalho no mesmo prazo que os homens e as mulheres sem filhos”, afirma.

Em 2010, as gestantes bolsistas que fazem pós-graduação ganharam direito da licença-maternidade, por até quatro meses, com o pagamento das bolsas, desde que o nascimento da criança acontecesse durante a vigência do benefício. Isso permitiu que o direito fosse estendido às participantes do Sistema Capes (da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e do CNPq, garantindo, assim, que as brasileiras não ficassem em desvantagem na carreira ao exercer a maternidade. Em meados de 2012, o benefício foi estendido pelo CNPq à modalidade pós-doutorado.

O diretor de Engenharias, Ciências Exatas, Humanas e Sociais da agência, Guilherme Sales Melo, aponta o Programa Mulher e Ciência como um marco na promoção da igualdade de gênero. Instituída pelo governo federal em 2005, a iniciativa visa estimular a produção científica e a reflexão acerca das relações de gênero, mulheres e feminismos no país e promover a participação das mulheres no campo das ciências e carreiras acadêmicas.

Segundo conta Melo, para este ano, ao lado das atividades já em curso, a preocupação é motivar as meninas para as carreiras científicas, em especial nas exatas.  “Além de contribuir com a maior participação feminina em áreas nas quais estão sub-representadas, está-se considerando a importância estratégica de ampliar a base de profissionais em áreas prioritárias ao desenvolvimento do Brasil”, informa.

Reprodução: MTC
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