Cruzamentos e manipulação genética

Muitas das pessoas que se opõem à produção de produtos transgênicos argumentam que não se deve “contrariar a natureza”, menosprezando assim as várias técnicas biotecnológicas aplicadas na manipulação genética.

No entanto, a questão de ir “contra a natureza” é relativa e ambígua. Ao longo dos anos, desde os primórdios da agricultura, o melhoramento genético sempre foi utilizado pelo Homem, e sempre acompanhou os progressos científicos, quer para melhoramento de plantas quer de animais. Consideremos, por exemplo, o triticale e a laranja. O triticale é um cereal “produzido” pelo Homem, uma vez que “não existe na natureza”. Trata-se de um híbrido que resulta do cruzamento entre trigo (Triticum) e centeio (Secale), que apresenta o paladar do trigo e a rusticidade do centeio. Cultiva-se em mais de um milhão de hectares pelo mundo inteiro, e entra habitualmente na composição do pão integral.


A laranja também é um híbrido, criado a partir do cruzamento de um pomelo (Citrus maxima) e uma tangerina (Citrus reticulata), usada frequentemente na alimentação humana, principalmente pela sua fonte de
vitamina C.

Por que razão nunca houve críticas a estes dois alimentos por parte dos opositores à manipulação genética?
Curioso também é o caso do óleo de linhaça. Trata-se de uma mistura de vários ácidos gordos, sendo uma óptima fonte de ómega 3 e ómega 6. Mas devido à elevada percentagem de ácido linolénico, o óleo de linhaça seca depressa e forma uma dura película que é aplicada em tintas e agentes isolantes. Por isso, é muito usado na indústria mas não o pode ser compreensivelmente na alimentação. Para contornar este problema, algumas sementes do óleo de linhaça foram submetidas a um tratamento com um agente mutagénico e, após milhares de gerações, obteve-se um cultivar de uma planta mutante que produz muito menos ácido linolénico. Ou seja, as pessoas andam a ingerir DNA submetido a mutação, mas, curiosamente,
ninguém aponta críticas ao consumo de óleo de linhaça, rico em antioxidantes e ácidos gordos essenciais.

Então e a hibridação no reino animal? Uma mula é um hibrido resultante de um cruzamento de um jumento com uma égua (ou de um cavalo com uma jumenta).

Até nós próprios! A comparação entre o genoma humano e o do chimpanzé (animal vivo geneticamente mais próximo) indica que nos separámos muito mais tarde do que inicialmente se supunha. Isto significa que
muito provavelmente nos cruzámos para produzir espécies hibridas (das quais não há registo e que estão agora extintas) antes da separação final há cerca de 5,4 milhões de anos.

A solução para alimentar a população humana em expansão estará certamente na biotecnologia, que pode fornecer plantas com um valor nutritivo mais elevado e com menos moléculas indesejáveis e tóxicas. Devemos encarar a manipulação genética como uma técnica poderosa que, em conjugação com o melhoramento clássico de plantas e animais, conseguirá sistematizar os elementos da natureza em prol de um mundo melhor.

Texto: Pedro Lino
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