Dogma quebrado: código genético não é imutável

Investigadores da Universidade de Aveiro (Portugal) conseguiram, pela primeira vez, alterar o código genético de um ser vivo.

A equipa de investigação descobriu que o fungo patogénico "Candida albicans" utiliza um código genético diferente do dos outros seres vivos e conseguiu compreender como é que esse fungo alterou o seu código genético. A partir desse conhecimento, os investigadores da Universidade de Aveiro conseguiram, pela primeira vez, fazer a alteração artificial do código genético de um ser vivo.


Ana Rita Bezerra e João Simões, estudantes de Doutoramento no Departamento de Biologia da Universidade de Aveiro, levaram a cabo a investigação durante os últimos quatro anos. Tiveram a coordenação de Manuel Santos, professor no Departamento e investigador do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar. A investigação foi financiada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia e pelo projeto Europeu do sétimo programa quadro (FP7) Sybaris. Publicaram, agora, os resultados na revista norte-americana «Proceedings of the National Academy of Science».

Os fungos com o código genético alterado produzidos pelos investigadores da UA são "fascinantes do ponto de vista biológico e evolutivo, têm alterações morfológicas impressionantes e uma enorme capacidade de adaptação a novos nichos ecológicos. São também tolerantes aos antimicóticos, mostrando que pequenas alterações na fidelidade da biossíntese de proteínas desempenham um papel importante na evolução da resistência a drogas antimicrobianas", refere uma nota da Universidade.

Como aprofundamento da investigação dos novos fungos, os investigadores sequenciaram o seu genoma e analisaram a resposta imunitária humana a esses fungos. Um trabalho desenvolvido em parceria com colegas do centro de sequenciação de genomas de Barcelona (CNAG), do Instituto Europeu de Bioinformática (EBI) e das Universidades de Florença e Perugia.

Os resultados das investigações mostram "profundas alterações no genoma destes fungos, na resposta imune humana e inflamação crónica em ratinhos de laboratório”, levando o sistema imunitário a não ter capacidade de o reconhecer, tornando o fungo imune a antibióticos e antifúngicos, sugerindo novas pistas para compreender o mecanismo de infeção de C. albicans". Segundo Manuel Santos, esta descoberta demonstra que “o código genético é importante para a resistência a fármacos e dá uma oportunidade de explorar o novo mecanismo dando novas pistas para poder criar novos alvos terapêuticos”.

O fungo é um microrganismo que causa diversas infeções e hospitalizações para as quais o tratamento é problemático, sendo que os resultados do estudo trazem novas pistas para compreender o mecanismo de infeção do C. Albicans.

Os novos desafios dos investigadores estão relacionados com a forma como os novos fungos toleram a própria alteração genética, como causam infeções e se tornam resistentes às drogas clinicamente usadas.
Esperam também ser capazes de manipular o código genético doutros seres vivos de modo a produzirem microrganismos com "características interessantes" para a biotecnologia e biomedicina.

Texto: Emanuel Oliveira
Revisão: Inês Barreiros
Source: CienciaHoje , TVi24 e Ionline
Share:

Facebook

Sobre