Simples molécula impede ratos-toupeira de contrair cancro (câncer)

As mesmas moléculas que conferem aos ratos-toupeira sem pêlo uma pele elástica e enrugada parecem impedir que estes roedores contraiam cancro. Uma pesquisa publicada no site da revista Nature identificou uma secreção celular açucarada que impede a propagação de possíveis tumores.
Os ratos-toupeira sem pêlo (Heterocephalus glaber), que são mais estritamente relacionados com porcos-espinhos do que com ratos, são considerados aberrações da natureza. Estas criaturas míopes passam a vida nas colônias subterrâneas ao serviço de uma única rainha - H. glaber é um dos dois únicos mamíferos "eussociais" já descobertos. O roedor não sente a picada de ácidos ou a queimadura de malaguetas, e parece ser o único mamífero que não é capaz de regular a sua temperatura corporal.


No entanto, a longevidade do animal e impunidade ao cancro são a razão pela qual o biólogo Andrei Seluanov mantém cerca de 80 ratos-toupeira sem pêlo numa instalação especial perto do seu laboratório na Universidade de Rochester, no estado de Nova Iorque. São conhecidos casos de roedores desta espécie que viveram até aos 32 anos e os cientistas nunca viram um com cancro. Em comparação, os ratos raramente vivem além de quatro anos morrendo muitas vezes devido a cancro.

Em 2009, a equipe de Seluanov informou que os fibroblastos deste roedor (um tipo de células encontradas no tecido conjuntivo) são sensíveis à presença de outras células, e em placas de Petri crescem menos que os fibroblastos de ratos. O caldo que os investigadores usaram para nutrir as células muitas vezes teve de ser tão viscoso que até entupia o esgoto.

"A nossa técnica de laboratório estava infeliz porque precisava de desmontar o sistema e limpar toda a matéria pegajosa", lembra Seluanov. "Eu disse ao meu aluno de pós-graduação que nós tinhamos que descobrir o que era a substância viscosa - devia estar relacionada com a sua resistência ao cancro. É claro que, naquela época era só um palpite. "

A equipa descobriu que o problema que dava origem ao entupimento dos canos era o resultado de um açúcar chamado ácido hialurônico (AH). O exsudado de fibroblastos de AH, juntamente com o colagénio e outros produtos químicos, forma a matriz extracelular, que dá a forma aos tecidos e torna a pele elástica. A equipa de Seluanov descobriu que os ratos-toupeira produzem grandes quantidades de longas cadeias de AH.

Os investigadores suspeitavam que as moléculas longas de AH formavam uma gaiola apertada ao redor das células, impedindo as células tumorais de se replicarem descontroladamente e, essencialmente, travando o "pré-cancro" pela raiz. Nas experiências de cultura de tecidos, as células de toupeira podem ser tornadas cancerosas, bloqueando o gene que codifica a AH ou aumentando os níveis de uma proteína que recicla o açúcar. Estas células, quando implantadas sob a pele de ratos, formaram tumores com facilidade.

Vadim Gladyshev, biólogo molecular da Harvard Medical School, em Boston, Massachusetts, afirma que esta pesquisa apresenta um forte argumento de que AH protege os ratos-toupeira sem pêlo do cancro, mas acrescenta que outros mecanismos são susceptíveis de fazer parte dessa proteção. Por exemplo, quando ele e os seus colegas sequenciaram o genoma deste animal, eles identificaram diversos genes ligados ao cancro que diferem entre as toupeiras e outros vertebrados.

Rochelle Buffenstein, gerontólogo da Universidade do Texas Health Science Center em San Antonio, que, com 2.500 animais, é guardião da maior colônia de ratos-toupeira sem pêlo do mundo, diz que não é clara a forma como AH protege contra o cancro, mas trabalhar nos mecanismos envolvidos poderá ser útil na luta contra o cancro em humanos.

Em primeiro lugar, a equipa de Seluanov pretende traduzir o seu trabalho em prevenção do cancro em ratos de laboratório. Os investigadores esperam usar a engenharia genética para dotar ratinhos com moléculas de AH, como os ratos-toupeira sem pêlo. Drogas que levam à produção de moléculas de longas moléculas de AH podem um dia ser benéficas na prevenção do cancro em humanos.

Tradução/adaptação: Inês Barreiros
Revisão: Emanuel Oliveira
Source: Nature
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